Guia do Professor
O Heródoto foi concebido como ferramenta de mediação — não substitui a explicação do professor, mas cria um espaço visual onde perguntas históricas ganham forma concreta. Este guia apresenta a filosofia da ferramenta, sugestões de atividades organizadas por nível de ensino e orientações práticas para o uso em sala.
Filosofia pedagógica
A história ensinada apenas como sequência de datas e eventos isolados cria uma ilusão de linearidade que o passado nunca teve. O Heródoto parte de uma premissa diferente: o passado é uma teia, e compreender um evento exige perguntar o que o causou, o que causou, e o que estava acontecendo simultaneamente em outras partes do mundo.
A ferramenta favorece três movimentos cognitivos centrais ao pensamento histórico:
- Causalidade — por que algo aconteceu? O que o tornou possível?
- Simultaneidade — o que mais estava acontecendo no mundo naquele momento?
- Comparação — como esse evento se assemelha ou difere de outros em outros contextos?
O grafo não tem uma resposta certa a oferecer — tem relações a explorar. O professor continua sendo o mediador indispensável entre a ferramenta e o aluno.
Adequação por nível de ensino
| Nível | Uso recomendado | Modos mais úteis |
|---|---|---|
| Ensino Fundamental II (6º–9º ano) |
Exploração visual guiada pelo professor; foco em um dataset por vez; uso das Perguntas Geradoras como ponto de partida | Grafo, Perguntas, Modo Guiado |
| Ensino Médio | Atividades de causalidade e comparação; cruzamento de múltiplos datasets; leitura das descrições como fonte secundária | Cadeia Causal, Comparar, Linha do Tempo, Filtros |
| Ensino Superior / Formação de professores | Análise crítica das classificações históricas; discussão sobre historiografia; uso das Fontes para aprofundamento bibliográfico | Todos os modos + página Fontes |
Antes da aula
- Acesse o app com internet antes de levar ao ambiente escolar, para que o Service Worker construa o cache offline. Isso garante funcionamento mesmo sem Wi-Fi na escola.
- Escolha os datasets relevantes para o conteúdo da aula. Ative apenas os checkboxes pertinentes — grafo com muitos datasets simultaneamente pode ser visualmente denso para iniciantes.
- Teste a atividade você mesmo antes de propor aos alunos. Explore as cadeias causais e verifique se as relações exibidas são coerentes com o que será discutido.
- Prepare uma pergunta de partida. A ferramenta responde melhor a questões do que a navegação livre sem objetivo — "O que causou o fim do Império Romano?" produz melhor exploração do que "vejam o grafo".
Atividade 1 — Exploração orientada
Objetivo: Desenvolver a consciência de simultaneidade histórica.
Como fazer: Escolha um evento central do conteúdo estudado (ex: Queda de Roma, Revolução Francesa, Independência do Brasil). Ative datasets de diferentes regiões do mesmo período. Peça aos alunos que identifiquem três eventos que aconteciam simultaneamente em outras partes do mundo e escrevam um parágrafo conectando-os.
Pergunta disparadora: "Enquanto isso acontecia aqui, o que estava acontecendo no restante do mundo?"
Atividade 2 — Perguntas Geradoras
Objetivo: Mostrar como uma questão histórica organiza e seleciona fontes e eventos relevantes.
Como fazer: Acesse o modo Perguntas. Escolha uma pergunta do grupo temático estudado (ex: "Por que o Império Romano caiu?"). O sistema carrega automaticamente os datasets pertinentes. Discuta com os alunos: por que esses eventos aparecem como resposta a essa pergunta? Quais estão faltando? O que mais poderia ser incluído?
Variante: Peça aos alunos que formulem uma nova pergunta histórica e identifiquem quais datasets ela ativaria — trabalha a competência de elaboração de hipóteses.
Atividade 3 — Simultaneidade histórica
Objetivo: Compreender que diferentes civilizações estavam em fases distintas de desenvolvimento ao mesmo tempo.
Como fazer: Use o filtro de período para selecionar um século específico (ex: século XV). Ative datasets de diferentes continentes. Na linha do tempo, observe os eventos que ocorrem na mesma faixa horizontal. Peça aos alunos que comparem o "nível de complexidade" de diferentes sociedades naquele momento.
Pergunta disparadora: "O que significa dizer que uma civilização era 'mais avançada' que outra? Esse conceito faz sentido olhando para este mapa?"
Atividade 4 — Cadeia causal
Objetivo: Desenvolver o raciocínio de causalidade histórica de longa duração.
Como fazer: Selecione um evento de grande impacto (ex: Revolução Francesa, Segunda Guerra Mundial, Independência do Brasil). Use o modo Cadeia Causal para percorrer as causas em dois níveis. Peça aos alunos que representem a cadeia num esquema próprio e discutam: qual das causas foi mais determinante? Havia causas estruturais e causas conjunturais?
Variante avançada: Use a Cadeia de Consequências no mesmo evento e peça aos alunos que conectem as duas cadeias numa linha do tempo própria, incluindo causas e consequências.
Atividade 5 — Comparação histórica
Objetivo: Treinar a habilidade de comparação histórica — identificar semelhanças estruturais e diferenças contextuais.
Como fazer: Escolha dois eventos de contextos distintos mas estruturalmente semelhantes (ex: Revolução Francesa e Revolução Russa; Queda de Roma e Colapso do Império Han; Inquisição e Macartismo). Use o modo Comparar para exibi-los lado a lado. Peça aos alunos que listem três semelhanças e três diferenças, justificando com as informações do painel.
Atividade 6 — Trabalhando com fontes
Objetivo: Desenvolver consciência sobre a hierarquia das fontes históricas e a distinção entre fontes primárias, secundárias e terciárias.
Como fazer: Abra a página Fontes e selecione um tema estudado em aula. Explique a diferença entre os três tipos de fonte. Peça aos alunos que escolham uma fonte primária e uma secundária do mesmo tema e respondam: que tipo de informação cada uma fornece? Por que precisamos das duas?
Extensão: Proponha que os alunos busquem uma das fontes listadas (físicamente na biblioteca ou digitalmente) e tragam um trecho para a próxima aula — exercitando o trabalho com fontes reais.
Tipos históricos — critérios de classificação
Cada entidade no Heródoto é classificada em um dos sete tipos abaixo. As classificações foram feitas manualmente, priorizando a natureza do fenômeno, não sua forma superficial. Algumas escolhas podem surpreender — e essa surpresa pode ser pedagógica.
| Tipo | Critério | Exemplo contraintuitivo |
|---|---|---|
| Político | Organização do poder, Estados, governos, diplomacia | Criação da ONU → político, não social |
| Guerra | Conflito armado organizado como evento central | Cruzadas → religioso, não guerra |
| Cultural | Arte, literatura, música, identidade, língua | Renascimento → cultural, não político |
| Religioso | Fenômenos onde a dimensão religiosa é estruturante | Inquisição → religioso, não guerra |
| Social | Estruturas sociais, movimentos, classes, ideologias de massa | Nazismo → social, não guerra |
| Tecnológico | Inovações técnicas e seus impactos históricos | Bombas atômicas → tecnológico, não guerra |
| Econômico | Sistemas econômicos, comércio, crises, modos de produção | Tráfico atlântico → econômico (e social) |
Limitações a comunicar aos alunos
- As descrições são resumos, não análises historiográficas completas. Funcionam como ponto de partida, não de chegada.
- As relações entre entidades (arestas do grafo) são representações simplificadas de processos complexos.
- A cobertura não é uniforme — Europa e Brasil têm mais entidades do que África subsaariana ou Oceania, refletindo tanto a historiografia disponível quanto os limites do projeto.
- Os textos em inglês e espanhol de entidades adicionadas recentemente ainda são cópias do português — a tradução será feita em versões futuras.
- A ferramenta não debate — não apresenta versões conflitantes de um evento. Para isso, use as fontes primárias e secundárias listadas na página Fontes.